segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Sobra

Daquele funil enorme que fica sobrevoando as situações, poucos passam. Por isso um funil. Já é esse o intuito pré-estabelecido.
E os que não passam? Os que não têm aquele formato exato para passar? Sobram. Simplesmente sobram. Às vezes por características tão irrelevantes que lhes causa raiva. Também, pudera.
Só quem já sobrou sabe como é, mas dificilmente se poderá achar alguém que nunca tenha sobrado. São assim as coisas, ou se vive com elas os se afasta de tudo que tenha funil. Se fechar resolveria, se a vontade de passar no funil só não aumentasse quando não passamos. Fato.
E as sobras? Onde elas chegaram, o que elas podem fazer por sobrar, como vai ser a partir daquele momento, quando ela tentou ser absorvida e não foi?
As sobras. Por hábito, nos livramos logo delas. Por questão de manter puro a ambiente, e por questão do espaço que ocupam. Logo nos livramos das sobras, ou as largamos em algum lugar onde um qualquer possa carregar.
E fazemos isso com pessoas. Tratamos pessoas que sobram como lixo, como nada. Sobrar faz parte? Palavras de alguém que nunca sobrou. O pior é que na maioria das vezes que se sobra, não é algo que se possa modificar. Nos rasgamos por dentro em busca de uma forma de mudar aquilo, achando que passando no funil sempre seremos melhores... Será mesmo que o seremos?
Talvez só não devesse haver funil. Já pensou em quantas pessoas já fez sobrar? E o pior é que nos sentimos muito especiais em relação aos que sobram!
Cada um deveria só estar onde gostaria de estar.
Escrevo isso como sendo mais uma sobra. Uma sobra de tantas coisas que me dá raiva. Sou resto de tantas histórias que nunca quis fazer parte, de tantos grupos, de tantas outras pessoas...
Acho que um dia vou acabar me acostumando.

domingo, 19 de outubro de 2008

O vento

Nos momentos críticos, está lá sempre o vento. A arte de me esgueirar por ele, de arranhá-lo, de escutá-lo falar suas indecências esquivas e suas graças desgraçadas. O vento, cheio de vozes cheio de palavras e de sensações.
O vento, que nunca me deixa; ele vem ressecando tudo de feio, mudando os segundos em minutos, minutos em horas. Descobrir a arte de domar o vento, de controlá-lo, um objetivo que já a muito alcancei, mas nunca porei em uso.
Se domino o vento, se o submeto ao que eu acho certo, ele não seria mais vento.
O vento que me faz desejar arrastar as mãos novamente em objetos antigos, o vento que me faz sentir novos sabores em comidas que a muito já fazem parte da minha cina.
O vento veio, me trouxe a sensação de nadar em sangue denso e pegajoso; me trouxe a sensação de não ter peso, de não precisar mais respirar, excretar, absorver; o vento veio e a euforia deixou por onde ele passou em mim.
Mas, se eu domino o vento, ele não é mais vento.
O vento dançante, saltitante, tão tolo quanto eu...
Vai, vento arrasta essa existência insignificante e faça-a mergulhar nos mais profundos mananciais de desespero, de loucura, de doçura, de suavidade, de arte.
Vento.

sábado, 4 de outubro de 2008

A sensação absurda de nada, às vezes, chega a tamanho insustentável extremo, que de qualquer jeito é preciso que seja preenchida.
Um arrepio na pele, uma busca ansiosa entre as roupas íntimas de algodão, os lenços, e nada. Ela se prorroga, e persiste em outros espaços, por toda casa, até que, depois de tudo revirado, finalmente o objeto tão desejado é encontrado.
Onde está o corpo? Onde está o ser? Nada, nada dá para encontrar no meio daquele caos imundo, daquela baixeza, daquele monte de lixo, amontoado, liberando sucos de uma repulsiva fermentação.
E surge uma perna... O deleite, o alívio, o objeto funcionando a todo vapor, as mãos tremendo, e o sangue jorra com uma delicadeza, lavando mágoas, emporcalhando o chão e arrastando aquilo que incomoda. Então vem a paz... Não existe mais vazio, ele está completamente preenchido com a dor física, a sensação de ter um corpo, a sensação de não ser só mais uma manifestação vapórica no ar.
Respiração, choro. A tremedeira então piora e vem nova agonia: como fazer para sair daqui amanhã, como vou mostrar minha cara de pessoa errada e ridícula, de pessoa tola? Amanhã todos vão olhar, vão sim! Todos vão fazer perguntas e ter pena de mim, todos vão me sufocar com coisas que eu não preciso ouvir! Será que vai dar para continuar existindo assim? O que virá depois? Quando a sensação de vazio vai parar de voltar, como um câncer incurável, insistente e maculado, que me povoa por completo nessa sina?
Silêncio.

sábado, 27 de setembro de 2008

A arte de quebrar os animais de vidro

Entrar numa loja, gastar algumas notas de 10 e comprar dois ou três lindos animais de vidro... Colocá-los sobre um móvel onde facilmente se possa vê-los e deixálos pegando poeira. Olhar de vez em quando aqueles objetos de utilidade nula, belezaqs múltiplas e graça interminável, mas que mal te interessam.
Segurálos, um a um entre os dedos. Pensar no que cada um representa: este foi do dia que coloquei aquele maldito anel no dedo, este, do dia que decidi que as distânicas físicas eram superáveis, este do dia que decidi que nenhuma nudez seria castigada.. esse do dia que me empertiguei de medo que outros iguais aos anteriores fossem comprados. Esse que não posso esquecer, cheio já de lascas quebradas, e rachaduras, do dia que desisti de sentimentos danosos ao meu desenvolvimento pessoal egoísta. Esse, do dia que comecei a imaginar uma vida inteira cercada de kittens lindos e peludos, e nada mais.
Animais de vidro... Lindos, delicados. Mas será que nunca tinha notado que por dentro deles existem bolhas, falhas, pedaços do vidro que foram mal esticados para dar o formato desejado, as malditas marcas da pinça, intrumento de modelagem dos tais?
Quebrá-los, um a um. Novos serão comprados e repostos. Os cacos com certeza vão me cortar um pouco - ou muito - e vão me levar a me arrepender de tê-los quebrado. Mas é inevitável. Ou os quebro agora, ou vou me doer sempre das imperfeições. Talvez, quando tiver que comprá-los novamente, eles venham sem as imperfeições tamanho incômodas por dentro.

domingo, 14 de setembro de 2008

O muro

Quatro pessoas subiram o muro. Recebi-as gentilmente com pedradas usando as pedras mais bonitas que eu vi njo chão.
Três pessoas subiram o muro... Um bom tiro de água bem gelada logo as enxotou, ninguém gosta de estar molhado no meio de uma nevasca.
Duas pessoas subiram o muro. Logo uma matilha de cachorros agressivos as cumprimentou com baba e dentes expostos, e com a mesma ligeireza que suriram, desceram pelo mesmo lado.
Uma pessoa subiu o muro. Mas não chegou ao topo. Os cadcos de vidro e os arames farpados machucaram suas mãos quando a pessoa tentou ir para o outro lado.
Uma pessoa subiu o muro. Mas o muro era tão alto que não dava para atravessar. Ela desistiu antes de vizualizar o topo do muro. Desceu, foi embora.
Nenhuma pessoa subiu o muro...

sábado, 6 de setembro de 2008

Enterro

Tudo se sacudindo, ou eu que tremia demais? Minha cama tremendo, seria um terremoto??? Silêncio. Só escuto os grilos cantando do outro lado da rua. A qui onde eu moro, o tempo nunca está ruim...
Parar e pensar sobre tudo. Cobranças, todas eu junto e jogo no lixo. Inúteis.
Velhas cartas de amor, igualmente inúteis. Um monte de caixas de pizza pelo chão, mais uns folhetos de tratamento fitoterápico. Tudo junto dentro do mesmo saco de lixo.
Dissimular? Não, obrigada. Pegue suas curiosidades que atropelam as cabeças e enterre. Juntamente com a minha decisão de ser infeliz.
Um grande enterro: sepultar o passado, escrever uma boa lápide; sepultar saudades estúpidas de mentiras, tudo para vala agora!! Sepultar junto os sentimentos inúteis. Se os sentimentos não me acrescentam arte ou conhecimento, o melhor é fazer com eles a mesma coisa que se faz com os cadáveres, ou eles apodrecem e te estragam junto. Sepultar sentimentos, coisa não muito fácil, mas realemnte interessante. Nada de jogos. É só pegar o que incomoda e jogar na cova, cobrir com sete palmos de terra e fazer uma boa lápide.
Eis então meu cemitério: lotado, fedido e nojento, um lugar do qual tenho muito orgulho. Mas um sentimento jás lá. E que descanse em paz.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Um inseto que voa, um inseto que pousa...
Alguma agitação, algo nela que parecia morto e enterrado volta a surgir... O que se faz para não incidir num erro? Fuga?
Um aperto, uma dúvida, uma certeza, um perfume. Vogais que se repetem no ar, perdem sua articulação e logo, talvez nem precisassem realmente ser pronunciadas.
Um sentimento, um não, um sim, uma raiva. As coisas que vão acontecendo e a atropelam, os tolos momentos colados com o lúmen de uma mentira bonita. Mas lúmen ainda é lúmen.
Um jogo, uma razão, uma queda, uma tremedeira. O perfume vem, invade, confunde, desola. Deixa a boca seca e as vontades obscuras voltam a gritar.
Uma dádiva, um grande defeito, um pequeno acaso, um maldito ímã. Mil coisas funcionam de forma a deixar até o círculo mais perfeito se deformar em uma oval...
Um furor, o rosado, uma saia, o vento... As peças nem se encaixam mais já fazem sentido num mundo que ela criou para que ninguém chegasse perto. Mas alguém há de ter a chave, sempre é assim.
Uma oscilação, uma fraqueza, um ímpeto, um freio. Algo falando que um erro só é realmente um erro se é repetido.
O incontrolável desejo de mudar o caminho das águas, de fazer duma mentira suja uma verdade brilhante. Eis novamente um muso para atormentar-te.