sexta-feira, 8 de agosto de 2008

João e Maria

Ainda lembro de você, não preciso citar nome algum, provavelmente você mesma nunca vai chegar a ler isso, e se lesse, me odiaria se eu citasse seu nome. Então que fique assim: você foi a Maria da minha infância, eu fui "a sua" João.
Lembro do jeito que você cochilava na esteira, a gente brincadva de massinha juntas. Eu queria comer o lanche do jardim de infância onde estudávamos só porque você sempre comia, hoje entendo que é porque sua mãe não tinha tempo de fazer a sua merendinha, a minha tinha e eu não queria. Preferia comer o mesmo que você.
Era mágico quando a gente segurava as mãos e eu fitava aquelas duas ametistas que te enfiaram os anjos pelos teus globos oculares. O cabelinho louro aguado, sorríamos mostrando nossos dentinhos de leite para quem quizesse ver.
Naquela época eu já sabia o que significava dar um anel, e eu queria te dar um anel um dia, um bem bonito, bem mais bonito que o que vinha no pirulito. Um de ferro, que nem os que minha mãe tinha numa caixa em casa. Eu queria te dar uma caixa daquelas também, para você colocar todos os anéis que eu te desse...
Simplesmente não deu tempo... Levaram-me você pra outro jardim de infância. Hoje, você teria 20 anos. Saberia brigar. Mas algumas coisas passam. Essa passou, se não posso dizer que me tomaram. Só futuro pela frente.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Estranhos

Foi estranho acordar e ver que eles tinham chegado. Eles chegaram, do nada, estavam por toda parte...
Usavam máscaras brancas e capuzes translúcidos, mal tocavam o chão em sua caminhada... Esvoaçantes, mesmo sem vento algum, iam se aproximando, depois se afastavam. Seus braços gelados hora por vez esbarravam na minha pele, que se arrepiava e parecia que ia desprender da carne. Seus olhos, ocultos pelas máscaras, diziam mensagens de desespero, agonia e furor, tudo misturado a um som suavemente ensurdecedor quando transpassavam os raios de sol.
Suas máscaras brancas luzindo, sem forma, sem boca, mas falando sempre palavras proibidas. Eles prosseguiam, bem lentamente, transpassando a janela, as grades de segurança, os móveis, as paredes, os anseios, as tristezas, o silêncio, e por onde iam passando, iam deixando tudo gelado, tornando aquele inferno meu, quente e fervoroso, pior que um braseiro, um inverno agradável. Os flocos de neve caindo, eu os comia e sentia um gosto agradável de sangue fresco neles. Meu coração quase parando, a ansiedade que transbordava! Deliciava-me totalmente com suas presenças delicadas e aterradoras.
Um prazer inexplicável vê-los voltando... Os rostos brancos.
Guardiões dos meus sonhos, da minha mágica, do meu amor eterno por alguém que nunca há de aparecer.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Ignorar é o maior dom que já recebi. É incrível ter o poder de ignorar certas coisas, treine o seu. Mas cuidado para não ficar como eu acabei ficando.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Em um momento estava lá. Eu pude ver, tinha forma e cor, eu podia até escutar, estava completamente eufórica.
Depois, do nada, assim como apareceu, sumiu novamente...
Fiquei, então, nervosa, procurando, olhava por toda parte, mas não achava. Quando fechei os olhos e caiu uma lágrima, senti surgir novamente. Abri os olhos e pude ver de novo, sorri, tentei alcançar, mas antes que eu conseguisse tocar, desapareceu novamente! Fiquei irritada, louca de raiva, muito furiosa, desisti então.
Quando desisti, eu vi novamente! Corri, tentei agarrar, mas me feriu. Chorei, me lamentei, fui embora, mas a presença logo veio me perseguir.
Com medo, resolvi olhar e estava lá, de novo. Gritei para ver se podia ser ouvida, e nada aconteceu. Gritei de novo, mas mas o único resultado foi desaparecer novamente.
A razão teria me feito desistir, um pouco de bom senso teria me ajudado a entender, mas nada disso eu usei, só queria continuar com o sonho de achar... Foi aí que vi de novo.
Dessa vez, nem me levantei. Continuei sentada, olhando, sem manifestar qualquer expressão ou fazer qualquer som; foi quando percebi que quanto mais eu queria, mas me fugia, quanto mais eu tentava alcançar, mas longe ficava, e que quando eu quase conseguisse tocar, iria desaparecer... Assustada com essa conclusão fechei os olhos. Mas não sei se quando eu abrir, ainda vai estar lá.
No fim, eu só nunca estava tentando alcançar o que eu realmente tinha visto.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Dead Babies

Dead Babies

Alice Cooper

Composição: Indisponível

Little Betty ate a pound of aspirin
She got them from the shelf upon the wall
Betty's mommy wasn't there to save her
She didn't even hear her baby call

Dead babies
Can't take care of themselves
Dead babies
Can't take things off the shelf
Well we didn't want you anyway
Lalala-la, lalala-la, la la la

Daddy is an agrophile in Texas
Mommy's on the bar most every night
Little Betty's sleeping in the graveyard
Living there in burgundy and white

Dead babies
Can't take care of themselves
Dead babies
Can't take things off the shelf
Well we didn't want you anyway
Lalala-la, lalala-la, la la la

Goodbye, Little Betty
Goodbye, Little Betty
So long, Little Betty
So long, Little Betty
Betty, so long

Dead babies
Can't take care of themselves
Dead babies
Can't take things off the shelf
Well we didn't need you anyway
Lalala-la, lalala-la, la la la

Goodbye, Little Betty


Sem comentários por hoje.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Escutando as vozes

Foi só um murmúrio. Já ouvia bem suavemente esse murmúrio, mas o ignorava, nunca disse-me nada que fizesse diferença. Na verdade, nunca tinha dito nada, só murmurado coisas que eu não conseguia compreender.
Num momento de silêncio, resolvi parar pra escutar. Não era tão baixo o quanto eu pensava... Era até alto, meio ensurdecedor...
Gritava muitas coisas, eu não entendia absolutamente nada. Então me concentrei.Reconheci gritos, mas também reconheci choro e balbúcias, tudo vindo misturado. Logo me toquei que não era apenas uma voz, mas eram muitas, todas dizendo coisas completamente diferentes, em tons diferentes, de formas diferentes, como se cada uma falasse uma língua. Concentrei-me mais ainda. As vozes foram se tornando mais claras, e mais vozes ainda surgiram. Vozes confusas, obtusas, cada voz falava mil coisas ao mesmo tempo, e misturavam os assuntos, e misturavam os tons, como se cada voz tivesse uma centena de ecos e cada eco dissesse algo diferente.
Cada vez mais confusa, aos poucos, fui tentando entender suas estranhas línguas; elas diziam muitas coisas, as que falavam rápido, mas algumas só se repetiam nas mesmas palavras, como se estivessem passando por algum tipo de fixação sem o menor motivo...
O segredo das vozes, as línguas, os timbres, algumas até mesmo cantavam...
No fim, não entendi nada. Parei, pensei muito sobre essas vozes todas juntas, se um dia elas concordariam entre si e parariam de discutir. Cheguei a conclusão que isso nunca aconteceria. Tudo aquilo, todas as palavras misturadas, toda aquela confusão que eu não entendia, tudo aquilo, era minha consciência. Até o dia da minha morte ela continuaria dizendo coisas que não fazem sentido, gritando coisas que nada me significam.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Novas luvas

As luvas foram compradas, e num canto foram deixadas por uma mente que não cessa procurar novas sensações. Até aquele momento realmente não tinham significado algum, além de serem bonitas e descoladas. Até aquele momento...
Logo, foram pegadas, apalpadas e percebidas pelo tato e olfato, além de em seu tolo mistério compreenderem um milhão de novas sensações.
Como seria digitar com luvas? E urinar? Ou gritar com as malditas enfiadas nas mãos? Como seria acordar com elas, dormir com elas, viver 24h por dia tirando-as apenas para evitar que se molhassem, e logo se tornassem de um conforto absoluto em um desconforto gelado, ou para fazer atividades que as pudessem sujar?
Muitas perguntas surgiram, muitas perguntas respondidas com o simples vestir daquela simples peça de vestuário. Logo, elas estavam perfeitamente encaixadas nas mãos... e no dia.
Encaixaram-se com perfeição no almoço, nos desenhos feitos, no livro lido, no controle da TV.
Encaixaram-se perfeitamente nos anseios, nas lástimas, nas agonias, nos vazios. Enfim, naquele espacinho que ficava entre a alma e a existência cotidiana e sem aventuras. As luvas se tornaram a aventura maior, seu simples vestir se tornou o maior segredo do mundo.
Conforme o tempo foi passando, logo não se dava mais pra separar o que era luva do que era mão, o que era pano do que era pele, o que era osso do que era fio, fibra com fibra, moldando o que agora era uma nova manifestação do sentir pelas mãos.
Logo, as luvas cresceriam, tomariam todo corpo; se expandiriam num campo semi-cíclico de experimentações e de minutos arrastados, seriam não apenas luvas, mas parte importante do que acontece num dia. As luvas saberiam os segredos, saberiam o momento certo para libertar as mãos de seu casulo térmico.
Talvez se tornassem uma obceção, uma loucura se ver sem elas. Parte do corpo que não pode mais ser retirada, como o estômago ou o encéfalo.
Mas no fim, que diferença realmente fazia? Já estavam vestidas, acopladas, e o resto, só o tempo diria.