segunda-feira, 19 de setembro de 2011

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Ocorreu um caso
fruto do mais tenro acaso
desdobrado pelas circunstâncias mais mesquinhas
e recheado da verdade que tudo que dura tem
Um casório sem casados
um ajuntamento ilusúrio
um olhar permanecia
um desiluto criando novas raizes em matéria grossa.
E camada sobre camada, um desenho
um poema
uma sobrancela
um olhar despreocupado.
E os corpos tombando lado a lado à preguiça e ao ritmo
descompassado de uma tarde qualquer
que cisma terminar cedo demais.
E já haviam me dito os outros que,
no meio de tudo, talvez fosse isso
isso fosse o amor, talvez fosse isso
e eu comecei a acreditar ser.
E não havia o que não acreditar.
Isso deve ser amor, isso deve ser
essa sensação de pés que o chão não tocam
essa coisa simples de sorrir e agradecer um gracejo
com um beijo.
E ele disse "isso é, eu sei que é amor"
e segurou mãos firme,
e olhou pra frente o amanhecer nublar
e deixou o vento bater e se deixou ficar
mais uma tarde despreocupada.
Aquilo é, é óbvio que é amor
a permanência do gosto,
a plenitude do descompasso
e a sutileza da raiz.
E os corpos tombados lado a lado
destituídos de tempo
desiludidos dos falsos milagres
deslizando lentos
pra um lugarzinho pleno de eternidade.
Ela sabia, ele sabia
aquilo devia ser amor, era pra ser amor
era um vibrar comuto de desarmonizar
tudo ali do lado de fora da bolha
criando do nada uma luz desigual
derramando graças nos olhares dos desocupados.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

E ele disse:

- Eu preciso de você.
E ela:
- Que?
- Eu disse preciso.
- De que?
- De você, oras!!
- De que??
- DE VOCÊ!!!
- Opa, desculpa, tinham umas bolotas de algodão no meu ouvido. - Aí tirou. - Pode repetir?
- Ah, deixa pra lá!
- Ah, vá lá! Diga!
- Que raios bolotas de algodão faziam nos seus ouvidos?
- Não lembro porque coloquei...
E a conversa não ia chegar a lugar nenhum. Mas ela tinha ouvido. E ele sentiu alívio dela fingir, naquela hora, que não tinha.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Soneto da Insegurança (que todo mundo às vezes tem)

De punho aberto, firme a direita
A lateral decrescente de retirada
A espada valorosa empinada
A guarda fechada, estreita


A valentia da mão dependurada
Descida pela cabeleira desconexa
A sequência de atos, complexa
Sempre em imprevisível emboscada


Mesmo suprema e cerrada, com perícia
A pequena corajosa em carmesi
Velada pelo olhar de patrícia


Às vezes amolece seu arfã de bravura
tem deveras vezes que não fecha a si
e fica modesta, e declina insegura

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Hoje acordei...

... com uma estranheza na alma, como se me faltasse alguma coisa... depois de um sonho doce, de final triste, ou pelo menos até onde eu vi acontecer foi triste, acordei com essa sensação suave de estar incompleta. Confesso que raramente me acontece e que o que me completa nesses dias é aventura, nunca ventura, mas somente um pouco de ventura, por hoje, transformaria meu dia... e ver seu cabelo escuro balançando ao vento.
É um vazio suave, com um suave vácuo, que suga de maneira igualmente suave, um nada frio, um buraco que se enche com neve macia. E aí, o pensamento se distancia desse plano e sobe milhões de degraus, e a consciência perde todo seu contato com o que os outros chamam realidade. Mas o que é mais real que o pensamento mais concreto, que não desaparece nem ao fechar dos olhos? 
E o dia se estica, preguiçoso e cinzento, e deixa espaço pra se falar dos sentimentos. O que seria de alguém que gosta tamanho de falar sem eles, se eles não acinzentassem, ao menos algumas vezes? Há quem discorde, apesar de tudo. Eu ainda acho que os dias cinzentos se espreguiçam mais, e deixam mais espaço pra coisas que não pertencem ao plano material.
E no fim, o que sobra desses dias ou é uma melancolia doce, ou uma saudade encolhida, silenciosa... hoje, ficarei com a saudade.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Como destruir uma pessoa, em 5 passos

1. Sinta um ódio mortal por essa pessoa, que nem pensa mais em você;
2. Decida que, por algum motivo que não existe, essa pessoa é um demônio;
3. Comece com uma trollagem simples, tipo visitar páginas sociais que acusem que você visitou;
4. Coloque seus amigos pra fazerem o mesmo, o máximo deles que puder;
5. Haqueie as contas de redes sociais da pessoa.


A pessoa vai começar a se sentir como encurralada; um frio na sua espinha cada vez que ela descobrir que não foi deixada em paz.  A pessoa vai sentir sua privacidade violada. Conforme a pessoa for sentindo sua privacidade violada, ela vai começar a ter crises de síndrome do pânico, pouco a pouco, e vai sentir medo de coisas que não terão sentido que ela tema. Quando essa pessoa estiver suficientemente transtornada, continue.
E aí, descobra que pessoas são como espoletas: armas, que podem atirar pra qualquer lado, a qualquer momento; armas que vão contra cabeça de pessoa por motivos menores. Espoletas bonitas, polidas, enfileiradas, que atiram do noda, sem aviso algum.

terça-feira, 26 de julho de 2011

addendum II

- Você realmente acredita nessa bobagem?
- Sim eu acredito.
Meses se passaram e logo eu havia caído dentro de um poço fundo. E aí eu disse:
- Você realmente acha que eu ainda acredito?
- Eu tenho certeza que não.
E sentados o tempo passou devagar. E ninguém pode imaginar, de verdade, que o próximo vai mudar tudo.
E o próximo perguntou:
- Então você não acredita mais?
- Não.
- Seria ótimo se acreditasse, você ainda é jovem pra deixar de acreditar.
E talvez fosse isso se não fosse todos aqueles diários cheios de draminhas internos e pequenas tristezas intermináveis. Ler aquilo era fermentar bosta, sim, mas como ter valido a pena se dessa merda não desse pra se tirar ao menos alguma coisa a aprender?
E aprendendo, você vai vendo o quanto foi tola. Você percebe o quanto pessoas mais novas em geral podem ser tolas. O quanto menos tola a idade te torna. E você vê que não tem, de verdade, ninguém que seja bom. Isso não muda o fato de que haja sim alguém que seja bom pra você.
No fim, acabei ficando escrava de ilusões. Hoje são verdades, e são meio duras de engolir depois do tanto que ouvi delas e elas eram mentira. Dessa vez não são somente palavras e é confuso crer que essa diferença é real, mesmo ela sendo mais palpável que esse computador; o medo faz esse tipo de coisa com a gente.
No fim, acho que eu to me lavando dessas coisas negativas do passado, por isso eu acabo falando. Quando estiver lavadinho, como se lava um quintal, eu vou poder dizer de novo certas coisas. O engraçado é não precisar mais dizer que acredito. Foi o jeito do mundo me provar o que era certo. Assim como dizem dos magos, que não precisam de fé porque eles simplesmente O viram. Não é preciso acreditar na gravidade, ou na decomposição, tá acontecendo aí, é só olhar.
E eu to olhando.