terça-feira, 21 de outubro de 2008

O dia depois de amanhã

Despertar novamente e ver o dia depois de amanhã.
As visões confusas, as dúvidas, nem ao menos saber se estarei lá para presenciá-lo.
Detalhes, cara minha, detalhes. Detalhes de tamanha relevância que deixam meus dedos endurecidos e minhas articulações doídas. Detalhes que fazem meu coração perder o rumo, e meu baço ficar repleto com sentimentos positivos.
Sim, eu amo com o baço. Amar com o coração dói. É artificial, desnecessário e manjado. Aí, meu baço... Cheio de novas histórias sempre, para contar. E guardar... Algumas, para esquecer.
No dia depois de amanhã, tudo pode mudar. Mas não vai mudar. Mas eu continuo achando que vai mudar.
Por que? O dia depois de amanhã vai responder.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A petulância, a curiosidade...
Logo, meus pés não tocam mais o chão.
Esse amor absurdo de viver, amar a vida acima de mil amores espalhados na poeira das velhas más intenções...
Um anel, um lasco de papel desbotado, um coração de argila. Tudo caiu e quebrou, será que um dia estiveram aqui? Será que um dia eu realmente estive aqui?
Amar a vida, e odiá-la tanto, que o ar entra azedo pela boca, e sai queimando as narinas. E saber que desde o começo era para ser assim. "Como pode alguém amar um monstro?" Como poderia alguém amar? Demonstrações escalaufabéticas de algo que talvez nem exista.
A chama queimando como se estivesse ali por algum motivo... O baço se aquece num sentimento inigualável. Palavras perdem o sentido, cada vez mais difícil entendê-las. Segundos com um porque depois de tanta espera. E saber que mais espera viria. Saber que esperar faz parte. Que o sono talvez só não seja tão necessário. Que aquelas cascatas vão estar lá, talvez estejam entre outros dedos. Imaginar mais um segundo ali, perto de um portal velho e algumas pessoas sem significado algum, fora do nosso campo semântico.
A perfeição pode estar em algum pacote diferente do imaginado. Ou pode ser exatamente como eu esperei. Ou pode estar só dentro de mim. Ou pode simplesmente não existir.
Que os próximos copos estejam cheios, que o pinguim imperador goze sua queda - que na verdade nem sabe estar a cair - e que possam haver fatias de pizza, de todos os sabores imagináveis. De pasta de dente talvez.
Odeio-me demais nesse momento por querer começar de novo.

A Sobra

Daquele funil enorme que fica sobrevoando as situações, poucos passam. Por isso um funil. Já é esse o intuito pré-estabelecido.
E os que não passam? Os que não têm aquele formato exato para passar? Sobram. Simplesmente sobram. Às vezes por características tão irrelevantes que lhes causa raiva. Também, pudera.
Só quem já sobrou sabe como é, mas dificilmente se poderá achar alguém que nunca tenha sobrado. São assim as coisas, ou se vive com elas os se afasta de tudo que tenha funil. Se fechar resolveria, se a vontade de passar no funil só não aumentasse quando não passamos. Fato.
E as sobras? Onde elas chegaram, o que elas podem fazer por sobrar, como vai ser a partir daquele momento, quando ela tentou ser absorvida e não foi?
As sobras. Por hábito, nos livramos logo delas. Por questão de manter puro a ambiente, e por questão do espaço que ocupam. Logo nos livramos das sobras, ou as largamos em algum lugar onde um qualquer possa carregar.
E fazemos isso com pessoas. Tratamos pessoas que sobram como lixo, como nada. Sobrar faz parte? Palavras de alguém que nunca sobrou. O pior é que na maioria das vezes que se sobra, não é algo que se possa modificar. Nos rasgamos por dentro em busca de uma forma de mudar aquilo, achando que passando no funil sempre seremos melhores... Será mesmo que o seremos?
Talvez só não devesse haver funil. Já pensou em quantas pessoas já fez sobrar? E o pior é que nos sentimos muito especiais em relação aos que sobram!
Cada um deveria só estar onde gostaria de estar.
Escrevo isso como sendo mais uma sobra. Uma sobra de tantas coisas que me dá raiva. Sou resto de tantas histórias que nunca quis fazer parte, de tantos grupos, de tantas outras pessoas...
Acho que um dia vou acabar me acostumando.

domingo, 19 de outubro de 2008

O vento

Nos momentos críticos, está lá sempre o vento. A arte de me esgueirar por ele, de arranhá-lo, de escutá-lo falar suas indecências esquivas e suas graças desgraçadas. O vento, cheio de vozes cheio de palavras e de sensações.
O vento, que nunca me deixa; ele vem ressecando tudo de feio, mudando os segundos em minutos, minutos em horas. Descobrir a arte de domar o vento, de controlá-lo, um objetivo que já a muito alcancei, mas nunca porei em uso.
Se domino o vento, se o submeto ao que eu acho certo, ele não seria mais vento.
O vento que me faz desejar arrastar as mãos novamente em objetos antigos, o vento que me faz sentir novos sabores em comidas que a muito já fazem parte da minha cina.
O vento veio, me trouxe a sensação de nadar em sangue denso e pegajoso; me trouxe a sensação de não ter peso, de não precisar mais respirar, excretar, absorver; o vento veio e a euforia deixou por onde ele passou em mim.
Mas, se eu domino o vento, ele não é mais vento.
O vento dançante, saltitante, tão tolo quanto eu...
Vai, vento arrasta essa existência insignificante e faça-a mergulhar nos mais profundos mananciais de desespero, de loucura, de doçura, de suavidade, de arte.
Vento.

sábado, 4 de outubro de 2008

A sensação absurda de nada, às vezes, chega a tamanho insustentável extremo, que de qualquer jeito é preciso que seja preenchida.
Um arrepio na pele, uma busca ansiosa entre as roupas íntimas de algodão, os lenços, e nada. Ela se prorroga, e persiste em outros espaços, por toda casa, até que, depois de tudo revirado, finalmente o objeto tão desejado é encontrado.
Onde está o corpo? Onde está o ser? Nada, nada dá para encontrar no meio daquele caos imundo, daquela baixeza, daquele monte de lixo, amontoado, liberando sucos de uma repulsiva fermentação.
E surge uma perna... O deleite, o alívio, o objeto funcionando a todo vapor, as mãos tremendo, e o sangue jorra com uma delicadeza, lavando mágoas, emporcalhando o chão e arrastando aquilo que incomoda. Então vem a paz... Não existe mais vazio, ele está completamente preenchido com a dor física, a sensação de ter um corpo, a sensação de não ser só mais uma manifestação vapórica no ar.
Respiração, choro. A tremedeira então piora e vem nova agonia: como fazer para sair daqui amanhã, como vou mostrar minha cara de pessoa errada e ridícula, de pessoa tola? Amanhã todos vão olhar, vão sim! Todos vão fazer perguntas e ter pena de mim, todos vão me sufocar com coisas que eu não preciso ouvir! Será que vai dar para continuar existindo assim? O que virá depois? Quando a sensação de vazio vai parar de voltar, como um câncer incurável, insistente e maculado, que me povoa por completo nessa sina?
Silêncio.

sábado, 27 de setembro de 2008

A arte de quebrar os animais de vidro

Entrar numa loja, gastar algumas notas de 10 e comprar dois ou três lindos animais de vidro... Colocá-los sobre um móvel onde facilmente se possa vê-los e deixálos pegando poeira. Olhar de vez em quando aqueles objetos de utilidade nula, belezaqs múltiplas e graça interminável, mas que mal te interessam.
Segurálos, um a um entre os dedos. Pensar no que cada um representa: este foi do dia que coloquei aquele maldito anel no dedo, este, do dia que decidi que as distânicas físicas eram superáveis, este do dia que decidi que nenhuma nudez seria castigada.. esse do dia que me empertiguei de medo que outros iguais aos anteriores fossem comprados. Esse que não posso esquecer, cheio já de lascas quebradas, e rachaduras, do dia que desisti de sentimentos danosos ao meu desenvolvimento pessoal egoísta. Esse, do dia que comecei a imaginar uma vida inteira cercada de kittens lindos e peludos, e nada mais.
Animais de vidro... Lindos, delicados. Mas será que nunca tinha notado que por dentro deles existem bolhas, falhas, pedaços do vidro que foram mal esticados para dar o formato desejado, as malditas marcas da pinça, intrumento de modelagem dos tais?
Quebrá-los, um a um. Novos serão comprados e repostos. Os cacos com certeza vão me cortar um pouco - ou muito - e vão me levar a me arrepender de tê-los quebrado. Mas é inevitável. Ou os quebro agora, ou vou me doer sempre das imperfeições. Talvez, quando tiver que comprá-los novamente, eles venham sem as imperfeições tamanho incômodas por dentro.

domingo, 14 de setembro de 2008

O muro

Quatro pessoas subiram o muro. Recebi-as gentilmente com pedradas usando as pedras mais bonitas que eu vi njo chão.
Três pessoas subiram o muro... Um bom tiro de água bem gelada logo as enxotou, ninguém gosta de estar molhado no meio de uma nevasca.
Duas pessoas subiram o muro. Logo uma matilha de cachorros agressivos as cumprimentou com baba e dentes expostos, e com a mesma ligeireza que suriram, desceram pelo mesmo lado.
Uma pessoa subiu o muro. Mas não chegou ao topo. Os cadcos de vidro e os arames farpados machucaram suas mãos quando a pessoa tentou ir para o outro lado.
Uma pessoa subiu o muro. Mas o muro era tão alto que não dava para atravessar. Ela desistiu antes de vizualizar o topo do muro. Desceu, foi embora.
Nenhuma pessoa subiu o muro...