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Entrar numa loja, gastar algumas notas de 10 e comprar dois ou três lindos animais de vidro... Colocá-los sobre um móvel onde facilmente se possa vê-los e deixálos pegando poeira. Olhar de vez em quando aqueles objetos de utilidade nula, belezaqs múltiplas e graça interminável, mas que mal te interessam.
Segurálos, um a um entre os dedos. Pensar no que cada um representa: este foi do dia que coloquei aquele maldito anel no dedo, este, do dia que decidi que as distânicas físicas eram superáveis, este do dia que decidi que nenhuma nudez seria castigada.. esse do dia que me empertiguei de medo que outros iguais aos anteriores fossem comprados. Esse que não posso esquecer, cheio já de lascas quebradas, e rachaduras, do dia que desisti de sentimentos danosos ao meu desenvolvimento pessoal egoísta. Esse, do dia que comecei a imaginar uma vida inteira cercada de kittens lindos e peludos, e nada mais.
Animais de vidro... Lindos, delicados. Mas será que nunca tinha notado que por dentro deles existem bolhas, falhas, pedaços do vidro que foram mal esticados para dar o formato desejado, as malditas marcas da pinça, intrumento de modelagem dos tais?
Quebrá-los, um a um. Novos serão comprados e repostos. Os cacos com certeza vão me cortar um pouco - ou muito - e vão me levar a me arrepender de tê-los quebrado. Mas é inevitável. Ou os quebro agora, ou vou me doer sempre das imperfeições. Talvez, quando tiver que comprá-los novamente, eles venham sem as imperfeições tamanho incômodas por dentro.
Quatro pessoas subiram o muro. Recebi-as gentilmente com pedradas usando as pedras mais bonitas que eu vi njo chão.
Três pessoas subiram o muro... Um bom tiro de água bem gelada logo as enxotou, ninguém gosta de estar molhado no meio de uma nevasca.
Duas pessoas subiram o muro. Logo uma matilha de cachorros agressivos as cumprimentou com baba e dentes expostos, e com a mesma ligeireza que suriram, desceram pelo mesmo lado.
Uma pessoa subiu o muro. Mas não chegou ao topo. Os cadcos de vidro e os arames farpados machucaram suas mãos quando a pessoa tentou ir para o outro lado.
Uma pessoa subiu o muro. Mas o muro era tão alto que não dava para atravessar. Ela desistiu antes de vizualizar o topo do muro. Desceu, foi embora.
Nenhuma pessoa subiu o muro...
Tudo se sacudindo, ou eu que tremia demais? Minha cama tremendo, seria um terremoto??? Silêncio. Só escuto os grilos cantando do outro lado da rua. A qui onde eu moro, o tempo nunca está ruim...
Parar e pensar sobre tudo. Cobranças, todas eu junto e jogo no lixo. Inúteis.
Velhas cartas de amor, igualmente inúteis. Um monte de caixas de pizza pelo chão, mais uns folhetos de tratamento fitoterápico. Tudo junto dentro do mesmo saco de lixo.
Dissimular? Não, obrigada. Pegue suas curiosidades que atropelam as cabeças e enterre. Juntamente com a minha decisão de ser infeliz.
Um grande enterro: sepultar o passado, escrever uma boa lápide; sepultar saudades estúpidas de mentiras, tudo para vala agora!! Sepultar junto os sentimentos inúteis. Se os sentimentos não me acrescentam arte ou conhecimento, o melhor é fazer com eles a mesma coisa que se faz com os cadáveres, ou eles apodrecem e te estragam junto. Sepultar sentimentos, coisa não muito fácil, mas realemnte interessante. Nada de jogos. É só pegar o que incomoda e jogar na cova, cobrir com sete palmos de terra e fazer uma boa lápide.
Eis então meu cemitério: lotado, fedido e nojento, um lugar do qual tenho muito orgulho. Mas um sentimento jás lá. E que descanse em paz.
Um inseto que voa, um inseto que pousa...
Alguma agitação, algo nela que parecia morto e enterrado volta a surgir... O que se faz para não incidir num erro? Fuga?
Um aperto, uma dúvida, uma certeza, um perfume. Vogais que se repetem no ar, perdem sua articulação e logo, talvez nem precisassem realmente ser pronunciadas.
Um sentimento, um não, um sim, uma raiva. As coisas que vão acontecendo e a atropelam, os tolos momentos colados com o lúmen de uma mentira bonita. Mas lúmen ainda é lúmen.
Um jogo, uma razão, uma queda, uma tremedeira. O perfume vem, invade, confunde, desola. Deixa a boca seca e as vontades obscuras voltam a gritar.
Uma dádiva, um grande defeito, um pequeno acaso, um maldito ímã. Mil coisas funcionam de forma a deixar até o círculo mais perfeito se deformar em uma oval...
Um furor, o rosado, uma saia, o vento... As peças nem se encaixam mais já fazem sentido num mundo que ela criou para que ninguém chegasse perto. Mas alguém há de ter a chave, sempre é assim.
Uma oscilação, uma fraqueza, um ímpeto, um freio. Algo falando que um erro só é realmente um erro se é repetido.
O incontrolável desejo de mudar o caminho das águas, de fazer duma mentira suja uma verdade brilhante. Eis novamente um muso para atormentar-te.
Devo uma parte de tudo que escrevo aqui a uma pessoa, e não poderia deixar de citá-la, óbvio, sem mencionar nomes.
Meu primeiro soneto surgiu de um devaneio de amor por essa pessoa. Hoje, já chegando ao 200º soneto, tenho muito gosto em deixar aqui minha menção a esta adorável pessoa.
Era uma tarde, tranquila, quando estava eu indo ver essa pessoa. O dia estava ensolarado, desconfortavelmente quente, digamos de passagem. Eu me vesti com minha saia favorita, minha blusa favorita, e peguei meu acessório favorito: minha mochila de morcego, companheira minha até hoje.
Fui feliz da vida, com meu dinheiro. Peguei o ônibus (essa pessoa nunca ia até mim, eu sempre tinha que ficar andando atrás dela) e fui para casa da pessoa. E foi aí que o incidente aconteceu.
Depois de ter me arrumado da forma mais legal que eu poderia, ter posto até perfume (coisa que eu não costumava fazer na época) me veio a pedrada: a pessoa vira pra mim e me diz o quão ridícula eu estou com minha mochila, que aquilo era coisa de criança, que era pra eu deixar a mochila na casa dessa pessoa se quizesse sair na rua do lado dela. Chorei, chorei horrores, por um momento tive a sensação que meus olhos tinham escorregado da cara de tanta lágrima que derramei naquele delicioso dia.
Poupei-me, cega demais para ver que a pessoa só tentava me moldar dentro do seu ideal, que a pessoa não me queria de verdade. Fiquei calada o quanto eu pude. Mas o quanto pude não era para sempre. Todo o falso romanmce, todas as palavras da boca pra fora, todas as grosserias, tudo me entalou um dia. E aí, nunca mais fui obrigada a ver aquele rosto novamente. Confesso que isso me causa um prazer inigualável. Mas toda vez que uso a mochila, me lembro da barreira que derrubei para usá-la. E isso me faz sentir forte.
Dizer e fazer aquilo que os outros recriminam ou repudiam faz parte de todos os seres humanos. Ou você liberta essa parte, ou nunca vai poder dizer que foi pleno.
Acordei sentindo um peso moderado nas costas. Rolara uma lágrima naquela noite, eu sabia. Sentia isso, daí a justificativa daquele peso estranho. Meus gatos logo perceberam, vieram e ficaram por perto, vigilantes. Procurei por um cigarro, depois pelo isqueiro. Lá estava ele, ao lado de mais um monte de tralhas espalhadas perto do sofá.
Lá estava eu, remexendo a bagunça. Achei uma carta velha, um par de anéis, um poema em versos decassílabos, um montinho de poeira com pêlos. Sentada ainda, no chão, resolvi acender um cigarro. Foi então que fiquei vidrada. A pedra riscou uma faisca, o gás do aparelhinho começou a sair, e logo eu tinha uma linda chama, azul e amarela, ondulante e delicada, bem diante dos meus olhos.
Permaneci com um dedo apertando a válvula de gás. A chama mexia-se nervosa, ficava mais clara, escurecia, ficava mais quente, depois mais fria, dançando, dançando, dançando. Era como uma linda saia aso vento, de uma beleza singular. Apesar de ser só um foguinho bobo, eu não conseguia parar de olhá-la...
Vi na chama dois olhos, vi uma floresta, vi um exemplar de "Leviatã", de Thomas Hobbes, vi a camiseta de um pijama de ursinho, um coelho azul de pelúcia, vi um espelho com moldura de bronze. Vi um lugar bagunçado, muitas tralhas espalhadas, vi o mundo girando perante meu nariz. O isqueiro foi esvaziando... Logo a chama estava fraca, logo pouco calor ela tinha, vi-a ir fraquejando, logo vi-a sumindo. Apagou-se o isqueiro. E o cigarro, pendurado no canto da minha boca, continuava apagado.
Ainda lembro de você, não preciso citar nome algum, provavelmente você mesma nunca vai chegar a ler isso, e se lesse, me odiaria se eu citasse seu nome. Então que fique assim: você foi a Maria da minha infância, eu fui "a sua" João.
Lembro do jeito que você cochilava na esteira, a gente brincadva de massinha juntas. Eu queria comer o lanche do jardim de infância onde estudávamos só porque você sempre comia, hoje entendo que é porque sua mãe não tinha tempo de fazer a sua merendinha, a minha tinha e eu não queria. Preferia comer o mesmo que você.
Era mágico quando a gente segurava as mãos e eu fitava aquelas duas ametistas que te enfiaram os anjos pelos teus globos oculares. O cabelinho louro aguado, sorríamos mostrando nossos dentinhos de leite para quem quizesse ver.
Naquela época eu já sabia o que significava dar um anel, e eu queria te dar um anel um dia, um bem bonito, bem mais bonito que o que vinha no pirulito. Um de ferro, que nem os que minha mãe tinha numa caixa em casa. Eu queria te dar uma caixa daquelas também, para você colocar todos os anéis que eu te desse...
Simplesmente não deu tempo... Levaram-me você pra outro jardim de infância. Hoje, você teria 20 anos. Saberia brigar. Mas algumas coisas passam. Essa passou, se não posso dizer que me tomaram. Só futuro pela frente.