segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Silêncio


Silêncio, silêncio
Silêncio no vácuo
Um grito rompe a garganta
No espaço o som não se propaga
Silêncio.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ciúme

Uma energia obtusa se prolifera nas entranhas mais sanguentas. Um cadáver lá se deposita e fermenta pútrido à mercê de larvas e vermes patéticos, que se fortalecem na dúvida. Um açoite incessante. Um passado que não se apaga. Uma história que se repete na mente. Obsessão.


Foi atirada em um buraco úmido e gelado. Caiu direto, aquecida somente pelos pequeninos raios de luz que manteve vivos no peito. Logo se viu flutuando no ar, sem chão, parede ou teto, suspensa num pus amarelado e denso, levemente opaco e pegajoso. Logo o líquido cismou em possui-la e foi adentrando suas narinas e boca, preenchendo seus pulmões e deixando o horrível gosto de limbo e ranho de podre, e conforme entrava, ia crescendo lá dentro e a empurrando de dentro pra fora, como se a qualquer momento ela fosse explodir. Os olhos sendo precionados pra fora, a ardência mesquinha que causava a pressão, a sensação de não ter as pernas... já não respirava mais o ar. Tremeu petrificada, se remexeu, calada e tentou nadar pra fora, mas era uma bolha hermética, sem abertura alguma, selada com a força dos deuses por uma pele escorregadia e translúcida. Lutou ainda um pouco, tentando sair. Inútil. Cada grito que forçava sair, mas o pus entrava pelo esôfago, mais pressão por dentro ela sentia. Desistiu então. De fora da bolha apenas se via a criatura desfalecida, os olhos escancarados, a boca semi-aberta, a alma vazada pra fora por debaixo das unhas. 
Um impulso final... uma explosão. Toda sopa nojenta regurgitada, a bolha desfeita de um impulso só... e ela volta a cair. Os olhos petrificados... o sorriso torto na boca. Ela nunca parou de cair. 




O ciúme não era a bolha, nem o caldo... o ciúme era o buraco.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Risco, logo existo

Ela e o espelho...
Ela impunha a caneta, como uma arma dela e dela mesma contra o mundo. Uma linha lânguida que desce macia sobre uma superfície rugosa. E o espelho a encara. É apenas ela e o espelho.
Pequenas partículas de grafite sobre o papel. Ela encara o espelho, encara o caminho que o pó cinzento percorre pela superfície brancosa. Só algo significativo dali sai quando não há harmonia, ou quando a harmonia se torna supre-real. Essas são as letras, as linhas, os arabescos, os pontos que lhe firmam o ser no conceito de realidade. Aquilo ali a diz viva. 


Risco, logo existo.
Risco o arabesco tênue
entre a rugura armada
e a armadura.
Risco a reta contínua
entre a plena costa do ciano
e a lapela da camisa
como que rabisca naquela lisa
levedura prensada dos insanos.
E de pedaços de reta vou formando
a linha limítrofe entre a rinha sombria do ciso
o riso prostrado do retardado
e o friso do ponto.

Coisas raras

Existem coisas que não acontecem toda hora.
Nascimento de albino.
Acidente de carrinho de supermercado.
Rompimento das barreiras do som.
Lilian pensar em compromisso sério.
Coisas acontecendo, e ninguém está olhando.
Sou a atriz principal do meu próprio filme:
sem diretor, sem pláteia, sem fãs.
Às vezes abandono realmente sucks.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Adeus é uma palavra

Certas coisas são passageiras, outras são pra ficar. Mas a verdade mesmo, é que a maioria esmagadora vem, deixa suas marcas, e depois se vai, até pelo próprio processo natural de mudança que tudo passa. Mesmo os laços mais fortes, às vezes, se desfazem. Mesmo as uniões mais óbvias, pelo próprio jeito natural de mudarem, e assim como elas , mudarem os participantes, pode sim, alguma hora, acabar. E esse medo assombra mesmo o coração mais inumano.
Gêmeos: duas crianças nascidas do mesmo processo de parto. Podem ser univitelinos, e aí nascerem com aparências iguais; podem ser polivitelinos e nascerem com aparências diversas; mas nos últimos anos descobri que podem nascer também de úteros diferentes.
Esse pequeno excerto é um tributo à amizade, elevada ao extremo. 
E é minha forma poética de declarar seu fim.
Porque não iria adiantar eu insistir, estava muito óbvio. Já não faço mais parte daquilo tudo. Então vou só me por no meu lugar.


Adeus é uma palavra muito difícil de dizer.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Quebrando o silêncio

Quebrando o silêncio, atiçando a chama viva
Visando a despedida da banalidade
Alisando meu cabelo, me chamando querida
Refletindo-se nos espelhos dessa cidade

Quebrando o silêncio, olhar cor de oliva
na fina linha de ternura, que arrebenta
mão repousa farta e boleia mexida
pela outra mão pequena, que acalenta

Quebrando o silêncio, num ritmo selvagem
Destacando a linha tênue da paisagem
Signo silogístico sem sofisma, sinseridade

E quebrado silêncio, balançando a cortina
Preenchendo de lira e mistério toda minha sina
Deixando um vazio desconhecido: saudade

Just be.

Um dia as pessoas aprenderão:
não é escolha, não há razão;
não é aleatório, não é forçado,
não se cria, não se espera, não completa nada;
não é feito de sinais quase inviséveis, nem misterioso,
não é feito de duração temporal,
nem construído de esforço excessivo.
É mais que espontâneo, é óbvio como tirar o dedo se esbarra numa agulha;
não é escolha, mas não erra,
não é aleatório, mas pode vir de qualquer lugar;
forçar desmancha o pouco que ainda se pode ter, é como briga
que quando um não quer dois não brigam;
não se cria porque já estava lá, o que se inventa são as formas de exteriorizar;
não es espera porque vem na hora inexperada, no momento mais estranho, às vezes, e te pega como uma onda de ressaca;
não completa nada, mas acrescenta tanto que reescreve tudo aquilo que já estava escrito,
com sinais óbvios e escandalosos no corpo, na alma e no espírito,
e mesmo em mistério algum ainda é a coisa mais misteriosa que poderia haver.
Não é sobre anos de compromisso,
muito menos sobre comprimisso,
mesmo que compromisso e duração de anos venha e seja natural,
muito menos sobre esforço, já que na hora certa se torna tão natural quanto respirar.
É o amor, que bate à porta e entra sem convite, fica e se descobre bem vindo, e não tem hora para sair porque talvez nunca se vá.