skip to main |
skip to sidebar
Toquei-o e ele rompeu-se da base suavemente... Não era convencional, o oxigênio ficou arisco, e logo, as antiguidades finalmente foram para o museu.
O fio era delicado, fino, delgado, ralo; sua resiliência era sutil, mas ali estava. Ele ondulava nos caminhos do vento, de um lado para o outro, de um desenho a outro, daqueles que só se vê contra a luz. O fio surgira, e flutuando no ar, agarrou-se em meu sedimento. As intempéries das reentrâncias arrastavam-no de um lado a outro, de uma face a outra, e, estranhamente, após tudo, ele estava lá.
O fio fora guardado, reservado? O que seria agora dele que havia sido descoberto em seu esconderijo? As cascatas não o levaram, ou os mares de tudo, ou as bravias empreitadas confusas e sincronizadas, mas ele insistiu e ficou, eis então sua cor representando a ele mesmo.
Talvez seja só uma forma de dizer que sempre pode recomeçar.
Um dedo aponta numa direção incerta, um caminho está traçado em meio ás cinzas.
Deixe vir o vento, ele virá, e caminhar cega, em linhas desconhecidas estará novamente aí, como minha solução a tudo que esvazia.
Eram 11:53pm. Os sete minutos haviam sido postos no relógio de Cronus, a sorte lançada, era a hora de sentar e esperar. Os anseios reclusos, os intentos se desvendando novamente... O pano, o sumo, o tato. Uma reação em cadeia sem fim, pronta a se iniciar. O sete minutos viriam a passar, talvez como sete anos, mas sua contagem se processava, segundo por segundo, átomo por átomo estava a preparar um adeus. A chuva casta logo tocaria os chãos, e transformaria-se; faria de desertos, paraísos.
Uma luz confusa que crescia, uma luz lunar, um morar que se esvai, uma flor que passou do tempo... Deixa o vento levá-la (talvez a resposta), não deixa o vento levá-la (um desejo guardado na caixa das desgraças de Pandora). Um mergulho de cabeça, deixar espalhar o mar, deixar dizimar o astuto, deixar revelar a metade macia e carnosa de um fruto roubado, ceifado pela insanidade. Deixa viver...
A fumaça do expresso era jogada no ar, confundindo as vontades e os quereres, uma cegueira maior que a emocional. O barulho do apito ensurdeceria, roçando com velocidade descabida os sentidos enfraquecidos pelo balançar incessante das franjas... Os olhos em pedaços, sua morada funda; a beleza dos ossos sorrindo aos de fora, as carnes escapando das ironias devassas demais para serem ditas... Veja que no fim ainda restará algo para me orgulhar.
Voltou todo sangue... Voltaram as dores, existem coisas ruins das quais não dá para se livrar. Aceitar a realidade, jogar tudo para o alto, se libertar dos grilhões daquilo que esperam de você. E, então veja as coisas acontecendo.
A tremedeira das mãos, mal conseguiam alcançar o inalcansável. Era sair, fazer surgir novamente a seifadora de sorrisos. Ela voltaria, já era hora, uma hora todos precisam sentir na pele os erros. Se os erros desabrocham dessa forma, eles param de consumir.
Era quase visceral a necessidade de algo para resistir. Não era o fim ainda! Ainda havia passos que teriam de ser dados, ainda havia tanta coisa para destruir... Os pedaços pelo chão, comer a areia abandonada por toda parte, os pedaços de um sonho ilusão, um querer inventado, uma fuga absoluta. Querer florescer a dor era a fuga, a fuga, a única solução. Essa linha - amaldiçoada seja - que traçara em noites em claro de lágrimas, seria seguida. Não importa o quanto, seguiria por ela. Vou lutar por ela. Vou rasgar por ela. Deixa florescer, deixa... A tremedeira pode ser evitada, deixa despedaçar o que tiver de ser despedaçado, deixa que tudo caia de fraqueza, mas essa linha seria sempre. Ela ficaria intocada, eu andaria por ela.
Mergulhar os olhos novamente no caldo denso e adocicado, belo, deixá-lo espalhar pelo chão... Seria libertar, libertar o que consome, libertar o vibrar agoniado dos ossos, e voltar a vislumbrar o brilho natural das obsidianas.
A tremedeira domina, e um vislumbre de razão surge! A insanidade toma forma, olha com olhos arredios e histéricos, de longe, como é divertido poder ver aquilo acontecer. Piada... A tremedeira termina de fazer o trabalho que a razão começou, cruelmente torrencial. E o ácido corrosivo - esses devaneios - voltam com força total.
Mas deixar estar é o que se deve fazer por enquanto. Aos urubus - todos eles - será dada apenas a carniça que merecem.
Do niilismo que fui fixo - ciumento! -
nesse substrato sucinto em demasia
Deixo gritar as paixões da biologia
num cruel e gigantesco fio de lamento.
Talvez tenha sido eu, parco, tal rebento
que após o desejo da chegada, passou
sem ventura, mas que tão querido ficou,
que encanta a maldição de seu nascimento!
Eis então que a ventura ganhou! Motivado
estava então tal rebento a sofrer o destino
e sua dor seria poema mal-acabado.
A luz seria doentia, a profundidade
boa amiga, os sentidos em desatino
o prazer maior dessa realidade.
E provar ao mundo que existir é uma desgraça necessária.
Existia ar ali. O estático foi se modificando, discretamente, até o momento que se arreganhou em cores diferentes das escuras e sombrias que os olhos já tinham se acostumado. Era pequeno, mas enorme ao mesmo tempo; os detalhes prateados traziam algumas certezas sobre pedacinhos de acontecimentos e de intentos, e logo, então, para tal surpresa, abriram em brilho. Tinham um jeito de brilhar amorfo, a luz podendo ser completamente ignorada. Os detalhes menores se esboçando lentamente como um pedaço de arte, os maiores se fixando como uma tatuagem nas retinas. Algo que, raramente, acontece. Era suave, mas longe de ser delicado, oscilava num vai e vem calmo, medido, complexo.O néctar compartilhado, o flutuar que ocasionava. Logo, tudo virou água. E a água subiu, se elevou, solapou, esfriou, esquentou, e depois virou um empecilho, mas também um veículo. Era talvez um pequeno pedaço de história que começava-se a escrever, talvez uma chance de poder transbordar novamente, sem placidez. A mesma água que ameaçou, e mudou tantas vezes, por fim foi uma parte daquele todo: um todo sem começo, sem meio, sem fim; apenas a continuidade diria todas as verdades.Era novamente um prazer estar respirando.
Antes dele estar aqui, já existia. Já existia na prata sua força, sua intensidade. Uma prata que saíra um dia da mina, que passara por tamanho número de mãos antes de ser o anel, sem que nenhuma de sua energia fosse perdida. Talvez outrora fosse uma taça, um garfo, outra jóia, mas nenhuma de tamanho valor. Talvez tivesse sido alguma rebarba, algum caco, algo dispensável, mas não agora onde ele estava. Não importava o que acontecera anteriormente, esse poder - poder supremo - que guarda o anel não iria se desfazer. Mesmo quando o dedo onde ele está se desfizesse, essa força tremenda estaria lá. E olhar para ele já era mais que rotina, senti-lo fazendo parte do dedo, como se fosse a quarta articulação.
Concebido, então seu par, passou em muitas mãos. Em nenhuma delas coube, em nenhuma delas se encaixou. Seu par estava longe então do anel, separado dele para sempre talvez. Iria para terra, sem jamais compreender a força do anel.
Mesmo que a terra sumisse, que a água secasse, que o fogo parasse de queimar e que o ar, de correr, o anel continuaria ali. A terra iria embora, a água estava secando aos poucos, o fogo se extinguindo sem combustível para queimar, o ar entrava e saia difícil. O éther era quase livre então. E o anel iria com ele.
O anel jamais sairia do dedo; mesmo sem seu significado, ele ainda significaria. Mesmo sem sua prata, a força estaria ali. O anel era o símbolo supremo, e não mais seria sujado por outras mãos. Estava no lugar certo, mas a hora era a errada. E seu par talvez nem existisse mais. Mas ele continuaria exatamente onde está. O seu verdadeiro significado, aquilo que fora selado por ele não iria embora, não importa o quanto doesse. Viria o véu preto, viria a rosa atirada no negro buraco, mas o anel ficaria.
Não era apenas um anel, era um grilhão arrastado por todos os segundos de existir, um peso vivo, que logo peso morto seria. Mas seria arrastado mesmo assim. Mesmo antes do anel, ele já estava ali. O anel já estava ali. Preso, no dedo. E nada seria capaz de tirá-lo, nada!