sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Existia ar ali. O estático foi se modificando, discretamente, até o momento que se arreganhou em cores diferentes das escuras e sombrias que os olhos já tinham se acostumado.
Era pequeno, mas enorme ao mesmo tempo; os detalhes prateados traziam algumas certezas sobre pedacinhos de acontecimentos e de intentos, e logo, então, para tal surpresa, abriram em brilho. Tinham um jeito de brilhar amorfo, a luz podendo ser completamente ignorada. Os detalhes menores se esboçando lentamente como um pedaço de arte, os maiores se fixando como uma tatuagem nas retinas. Algo que, raramente, acontece. Era suave, mas longe de ser delicado, oscilava num vai e vem calmo, medido, complexo.
O néctar compartilhado, o flutuar que ocasionava. Logo, tudo virou água. E a água subiu, se elevou, solapou, esfriou, esquentou, e depois virou um empecilho, mas também um veículo. Era talvez um pequeno pedaço de história que começava-se a escrever, talvez uma chance de poder transbordar novamente, sem placidez. A mesma água que ameaçou, e mudou tantas vezes, por fim foi uma parte daquele todo: um todo sem começo, sem meio, sem fim; apenas a continuidade diria todas as verdades.
Era novamente um prazer estar respirando.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O anel

Antes dele estar aqui, já existia. Já existia na prata sua força, sua intensidade. Uma prata que saíra um dia da mina, que passara por tamanho número de mãos antes de ser o anel, sem que nenhuma de sua energia fosse perdida. Talvez outrora fosse uma taça, um garfo, outra jóia, mas nenhuma de tamanho valor. Talvez tivesse sido alguma rebarba, algum caco, algo dispensável, mas não agora onde ele estava. Não importava o que acontecera anteriormente, esse poder - poder supremo - que guarda o anel não iria se desfazer. Mesmo quando o dedo onde ele está se desfizesse, essa força tremenda estaria lá. E olhar para ele já era mais que rotina, senti-lo fazendo parte do dedo, como se fosse a quarta articulação.
Concebido, então seu par, passou em muitas mãos. Em nenhuma delas coube, em nenhuma delas se encaixou. Seu par estava longe então do anel, separado dele para sempre talvez. Iria para terra, sem jamais compreender a força do anel.
Mesmo que a terra sumisse, que a água secasse, que o fogo parasse de queimar e que o ar, de correr, o anel continuaria ali. A terra iria embora, a água estava secando aos poucos, o fogo se extinguindo sem combustível para queimar, o ar entrava e saia difícil. O éther era quase livre então. E o anel iria com ele.
O anel jamais sairia do dedo; mesmo sem seu significado, ele ainda significaria. Mesmo sem sua prata, a força estaria ali. O anel era o símbolo supremo, e não mais seria sujado por outras mãos. Estava no lugar certo, mas a hora era a errada. E seu par talvez nem existisse mais. Mas ele continuaria exatamente onde está. O seu verdadeiro significado, aquilo que fora selado por ele não iria embora, não importa o quanto doesse. Viria o véu preto, viria a rosa atirada no negro buraco, mas o anel ficaria.
Não era apenas um anel, era um grilhão arrastado por todos os segundos de existir, um peso vivo, que logo peso morto seria. Mas seria arrastado mesmo assim. Mesmo antes do anel, ele já estava ali. O anel já estava ali. Preso, no dedo. E nada seria capaz de tirá-lo, nada!
Quando deixei-me ver, já não estava mais lá. Retirei-me sucintamente, demasiada satisfeita para ver que ainda eram olhos cegos que olhavam para mim. Algumas palavras, foi-se na minha amada morada o último provar do mais doce mel. Não quero mais mel algum. Quero, ao menos dessa vez, dar-me ao luxo do luto de sua morte. Caminhe, caminhe por aí, mas em mim, vou matar-te, extinguir-te, esmagar-te como mereces, como mereces a borboleta delicada e frágil que sempre foste.
Deixe-me, ao menos por um instante respirar algo que não sejas tu. Deixe-me, por pelo menos um segundo, existir por algo que não sejas tu. Pode levar essa coisa cálida que guardei com tanto carinho por anos, leve embora de mim esta maldição.
A cada momento que penso que busquei, cegamente achar tamanho tolo sonho, sinto o corpo desaparecendo.

O silêncio devorava... Perdeu o sentido, mesmo as linhas curvas perderam seu lugar. Despersonificou, despersonalizou o indespersonalizável e estagnou. Flutuava no ar, impregnando de lodo tudo, e mesmo os mais leves movimentos gastavam tanta força, tanto ardor, que nada mais significava coisa alguma. Despedaçado e esturricado por toda parte, pegajoso, desleal.
Antes acompanhava sutilmente tudo, era resposta para as mais profundas perguntas, mas agora só empecílio, só imundice restava dele. E agarrava por tudo! Pelas paredes, pela pele, pelas moléculas do ar, pelos objetos bem cuidados, impregnando com dor, desespero e doença.
Eis então que surgiu e ficou clara a doença maior. O motivo da desmistificação e desembelezamento dele. Essas coisas de sonhar, de querer, essas coisas inúteis que impulsionam alguns, mas que ralos ainda apenas conseguem se corroer por ela. Essa coisa maldita, desdenhosa, mentirosa e suja.
Essa coisa precisava desaparecer, acima de tudo sumir para sempre, para limpar e purificar tudo de todo nojo, de todo ranço e rancor. Essa coisa venenosa, intravenal, líquida e quente, essa coisa pesada e crispada. E essa coisa há de desaparecer. E o silêncio vai voltar a ser belo, e vai voltar a ser leve, e vai voltar a impulsionar.
Melhor deixar pairar o vazio extremo do que preenchê-lo com dúvida.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Desejos / O meu mar

Como pude deixar-me acabar tão longe de mim?
Como pude permitir que tudo que eu sempre quis fosse destruído, despedaçado e mirrado por mim?
Oh, sou tua ghost, tua Lacrimosa, tua esfinge.
Estar e não existir, existir e não viver. Ou não estar, não existir, não viver?

Novamente sinto-me atraída aos vales das cruzes de mármore pelo perfume sedutor e adorável de criptas... Poder extirpar por fim esses suspiros ardidos e deficitários, flutuar além dessas moléculas e mergulhar na fúria do mar e de lá não ter de sair!
Eis que novamente vem ela: minha musa, minha senhora, essa incrível dama de tamanha beleza, que é proibida e foi coberta, pelos anos, pelo seu manto negro. Meu maior amor, minha espera, meu querer supremo, minha extrema unção.
Desejar-te voltou para me atormentar. Meu repouso se quebra, juntamente com todos os meus sonhos onde você não está. Você surge, ampara-me, mas nunca posso te tocar. Por você eu seria um homem, por você eu seria um sorriso, seria uma espada de prata. Não mais este réquiem.

Acordei com o mar nos olhos. Era saldado, deigado e arredio, buscava intensamente o chão. Esta ventura pode estar, então, chegando ao seu fim? Eu era vapor, era apenas uma essência gelada e sem existir algum, e logo nem mais o vapor frio e pegajoso do teu ar eu poderia ser.
O mar veio, revolto, e se jogou contra mim. Deslizou pela minha face, e depois escorreu - acre e sosso - pelas minhas entranhas vermelhas e adocicadas ainda de suspiros. Foi apodrecendo meus ossos vibrantes, meu baço repleto, e apagou o fogo do meu coração. Já não podia mais queimar-te, já não podia mais ser aquela pistola, era o desconstituir da criação, lento e dolorido, a cada segundo. Não queria parar o mar. Apenas dessa forma pude ver o fogo - o fogo destrutivo - e sentir que ele não estava mais ali.
Os passos sem jeito ficaram mais sem jeito, já não havia mais os apoios naturais para os braços ficarem; ambos membros pendiam apenas pela gravidade, à espera de serem arrancados por ela. As madeixas mal aparadas agora eram a última máscara, e mais que máscara eram a protecção contra o tudo de lá de fora. As palavras se desarticulando, perdendo seu significado, apenas deslizando suas ondas pelas moléculas repressoras a toda volta. Logo as ondas perderam o motivo de vibrar. Era apenas o ar que se afastava, e depois, nem mais era o ar. Era apenas o vibrar de minhas moléculas, a electricidade correndo. Mas o chamado, apesar de surdo, ainda lá estava. Nenhuma resposta. Apenas pena. Uma pena que não era para ter estado ali nunca.
As luzes fortes de aurora começaram a perder a forma, depois foram enfraquecendo, e apesar de significar que outro dia havia começado, não eram luzes ternas, nem quentes. A agressividade delas fizeram-me me cerrar ainda mais, e uma beirada rosada ficou pendurada para fora. Uma beirada que precisava - mais que tudo. - ser extinta. A necessidade de absorver o meio desaparecera; foi substituída por um entorpecimento suave, sem corpo, sem existir. Faltavam ainda dois passos, passos bem curtos para serem dados. A matemática, minha melhor conselheira, seria a peça que faltava para que um desses passos fossem dados. O outro, era preciso um esforço mais descomunal. No entanto, para poder deixar-me voar, sabia que o último passo jamais deveria ser dado. Que deveria ser ignorado nos caminhos estranhos que eu escolhera. O ser humano tem essa linda capacidade de se conformar.
E esse mar, malditíssimo mar, ele não terminaria de mim o que começou. Era melhor voar, e deixar apodrecer longe de mim esses pedaços sangrentos que nomearam.
Minha matemática, tamanho querida, dessa vez não tinha o poder de mudar aquele caminho. Era o nada, ou o nada. Era o nada daqui, ou o nada de outro lugar. No fim, o olhar ainda seria esfumaçado, e sem graça alguma.
Pude olhar uma flor que havia sido atirada no mar, na noite anterior, e vomitada por ele pela manhã. Para meu desespero, estava tão desfigurada, que consegui nela um espelho de verdade. E também nela, tive uma visão do futuro. Não podia deixar, de forma nenhuma que tu visses, com teus olhos castos, como ficaria a rosa depois que foi devorada pelo seu próprio mar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

É lá que mora o doce mais doce,
o bem-querer mais bem-quisto,
todas as graças das mais graciosas,
o fermentado e destilado sumo deste fruto carnoso e demasiado branco,
o lenço profundo das lágrimas que desmancham os olhos de saudade...
Perdido por todos os lados, ofuscado pela luz matinal de um sentimento que cisma em nascer e se pôr, dia a dia, por todos os segundos que preenchem o existir dessas duas metades: a de cima, e a de baixo.
Desgostosa a distância entre estas, se novamente se unem, abafam o som maldito; mas se se aproximam, e se apertam uma na outra, suas cores se tingem em rubro vivo, e logo amanhecem no mais pueril sorriso que já riscou tal face...
Acima de tudo, é o local mais seguro do mundo, onde mora os mananciais do descanso mais terno, e morno... A casa de tamanha quimera de beleza e plenitude, a casa dos justos, e dos intuitivos. Uma casa onde pouca razão reina, onde se espelham as batidas mais fortes do miocárdio, onde se pode ler alguns segredos - apenas os tolos - e onde desabrocham os mais escondidos mistérios das emoções humanas.
Poderia viver - e sobreviver - dessas duas bem-feitas metades, que mesmo silenciosas, possuem toda uma voz e sua canção própria. Mas não poderia viver - em plenitude! - sem esses dois pedaços, essas duas partes - a de cima, e a de baixo - de calma, furor e majestade... Essas metades que dão asas a minha poesia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Os Ossos

A fibra das carnes agarram-nos, e bambeiam-se pelos tendões. O sangue lhes corre de ponta a ponta, as moléculas incipientes de suas superfícies porosas prendem-se e desprendem-se deles como se lhes fossem indiferentes... E eles, duros, rijos, mas frágeis, vibram...
Sacolejantes, presos pelas beiradas, vibram a energia de existirem. Vibram ritmos e canções de todas as partes do mundo, vibram desejos e arrepios da pele, vibram crispados de protuberâncias confusas e desdenhosas, vibram rompendo as vísceras e contundindo as espécimes variadas de emoções. Vibram por terem vida própria, vibram pela sensação de existirem, vibram independentes de tudo, independentes de seus próprios donos. Seu chacoalhar confuso movendo o resto pelas ondas teimosas do ser e do não-ser, oh, os quereres que guardam!
Ao aproximarem-se do quisto, remexem de um jeito inimaginável, logo tomam o controle e fazem das diferenças um motivo para unir! Impressionam pela teimosia, suas paixões misteriosas adormecidas entre material duro e quase sem vida, a rigidez sensível de seus súditos - oh esqueleto! - das vontades misteriosas e das coisas que nunca contamos, essa casca interna no corpo, espectral quando a vida se esvai e larga apenas pedaços de existir em memórias alheias...
permanecem incompletos, suas vontades intactas, seu existir um mistério! Em ti viveria o elixir da vida? Pois é de ti que a existência Oh, ossos! - veja só como são! - essa escarne de pequenices, essa excência branca do existir, os guardiões do tutano - e dos desejos tutanais - e das graças enraizadas que apoiam o existir dos humanos. Oh, ossos, seus mistérios tutanaisefêmera e tola desses seres sem metade se completa na terra, onde todos hão de ser iguais.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O que fazer com aquela maldita ânsia?
Ela vem rasgando a carne, sendo cuspida em chamas do meio dos miolos e largando um rastro ardido pelos feixes musculares! Intensa, vem arrastando consigo as vontades misteriosas que nem ao menos entendemos porque moram lá... Vem o grito, vem a força de escapar de tudo, vem a degustação dos ventos de primavera, vem o poder de romper o infinito áspero e sem paredes...
E logo, me acabo, me basto de lábios bem-feitos, os mais plácidos que já vi...
Um arrepio na pele, as mãos que continuam iguais, a saudade se dissolve em meio às palavras sem ambição alguma, sussurradas suavemente à altura do ouvido, arrastadas entre a lama e árvores - quem seria melhor confidente que elas? - e depois a chuva, e então os livros, calados, começam a falar...
Como cogitar que um querer bem quisto caminharia por tantas pedras e continuaria quase intacto, quase sem ondas, quase sem marcas? Só pode ser realmente pureza, daquela que achamos só ver nos filmes, pureza rara daqueles que estiveram murados esperando. Aqueles que souberam baixar a guarda apenas no momento certo. Daqueles que ficaram marcados como os insensíveis, e que lidaram com o mundo como quem lida com adultos grandes e maus. Daqueles que aprenderam cedo que confiar é perigoso de mais para se dar ao desfrute de confiar em todos facilmente.
E logo os lábios se afastam, esboçam um sorriso e rosam pela percepção de serem observados, mostrando graça além da graça, timidez além de timidez, e além de tudo, temor além de temor. Impossível explicar.
Talvez esse poder que as pessoas que amamos tem de nos ferir.