sábado, 27 de novembro de 2010

Aviso

Adoro esse blog, mas vou encerrá-lo por falta de seguidores. Alguma hora cansa escrever para a parede.

Papel Amassado

Num quarto vazio,
jogados num canto
um pequeno maço de pincéis baratos
e um pedaço de papel.
Amassado, velho.
Mas ainda perfeito pro uso.
Assim como o sonho
usado
de daqui a alguns anos
varar aquela porta enorme
com um papel que significa
que eu sei.
Um papel amassado que ainda pode ser pintado.
Ou não.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

icterícia

menina icterícia
desdenhada superfície de felícia
delicada bandagem enxarcada
da mesma gosma ressecada
que envolve os dedos...
despedaçada


oblíqua a coluna adormecida...
segundo crispado de retundência
ecoando na cabeça espremida
entre o cabelo sujo
e os órgãos em falência


é o som da pestilência
e do sangramento vencido
de um miocárdio dolorido
que desespera obtuso
implorando por segundos de dormência
implorando ser banido
da tortura extrema
e da penitência


é a gosma da divina providência
roubando do corpo demente
a reta medida
entre o fígado, inchado e carcomido
e o baço, que já vencido
morre decrescido
da douçura sublime
e deita despedaçado
pela loucura latente


e separam-se todos
no arsênico, e no formol
um tonel de vício, lástima e riso
onde a figura inerte fica desfalecida
é a imagem paralizada
com os olhos escancarados e chorosos
e onde a graça desmedida da vida
se despedaça cansada, esbaforida
e a dor, extrema, que imobiliza
a visão perfeita, eternizada

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

La moissonneuse à venir et arracher ce qui reste une fois ...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um interlúdio entre a clara verdade e a ilusão da fantasia

Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.
George Orwell
Um ser humano: ele nasce. Ele tem braços, tem pernas; tem fome, frio, sede... tem vontades. Elas crescem e amadurecem com ele, ao lado dele, dentro da clara compreensão de que cada escolha culmina uma consequência, e que a liberdade dele está dentro, e somente dentro dele mesmo. Ele nasce com esse desejo implícito de voar sobre o chão, poder abrir as asas quando quiser, uma alma tão fina e leve que levanta facilmente voo. E aí é que vem o problema: alguma hora, em algum momento, ele vai precisar dizer não. Ele terá que dizer não pra sua vontade, e então, se tornará verdadeiramente livre. O que é dessa pessoa que não o diz?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Silêncio


Silêncio, silêncio
Silêncio no vácuo
Um grito rompe a garganta
No espaço o som não se propaga
Silêncio.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ciúme

Uma energia obtusa se prolifera nas entranhas mais sanguentas. Um cadáver lá se deposita e fermenta pútrido à mercê de larvas e vermes patéticos, que se fortalecem na dúvida. Um açoite incessante. Um passado que não se apaga. Uma história que se repete na mente. Obsessão.


Foi atirada em um buraco úmido e gelado. Caiu direto, aquecida somente pelos pequeninos raios de luz que manteve vivos no peito. Logo se viu flutuando no ar, sem chão, parede ou teto, suspensa num pus amarelado e denso, levemente opaco e pegajoso. Logo o líquido cismou em possui-la e foi adentrando suas narinas e boca, preenchendo seus pulmões e deixando o horrível gosto de limbo e ranho de podre, e conforme entrava, ia crescendo lá dentro e a empurrando de dentro pra fora, como se a qualquer momento ela fosse explodir. Os olhos sendo precionados pra fora, a ardência mesquinha que causava a pressão, a sensação de não ter as pernas... já não respirava mais o ar. Tremeu petrificada, se remexeu, calada e tentou nadar pra fora, mas era uma bolha hermética, sem abertura alguma, selada com a força dos deuses por uma pele escorregadia e translúcida. Lutou ainda um pouco, tentando sair. Inútil. Cada grito que forçava sair, mas o pus entrava pelo esôfago, mais pressão por dentro ela sentia. Desistiu então. De fora da bolha apenas se via a criatura desfalecida, os olhos escancarados, a boca semi-aberta, a alma vazada pra fora por debaixo das unhas. 
Um impulso final... uma explosão. Toda sopa nojenta regurgitada, a bolha desfeita de um impulso só... e ela volta a cair. Os olhos petrificados... o sorriso torto na boca. Ela nunca parou de cair. 




O ciúme não era a bolha, nem o caldo... o ciúme era o buraco.