domingo, 5 de abril de 2009

Vilão

A culpa é do mundo... A culpa é dos deuses, seres cruéis... A culpa é do destino, que é mal e luta pela minha infelicidade... Lamento por qualquer um que tenha quaisquer dessas respostas para o próprio insucesso. Lamento mesmo. De coração. Ou não.
Difícil é quando não é o destino, nem os deuses, nem nada desses fatores etérios e dessas desculpas para tolos. Difícil é quando a culpa é de alguém. Meu coração se partiu porque alguém o partiu, sou infeliz porque alguém me fez infeliz. Tudo desculpa esfarrapada para quem não corre atrás do próprio bem-estar, para quem não se aceita. Não é o que o mundo faz para te tornar feliz, é o quanto você recebe o que a vida trás; infelicidade é opção. Um travesseiro, uma cama cheirosa, comida na mesa. Isso é ter prato cheio para felicidade.
Culpar os outros dea própria infelicidade é sinal de fraqueza de caráter. É não saber se olhar no espelho e se ver, é não saber aceitar a própria realidade.
Por a culpa nos outros é moleza, descontar a raiva em quem não tem nada a ver é fácil; tudo coisa de covarde. Aceitar a situação e olhar a vida, e agradecer - isso é para os fortes.
Seu ódio, sua revolta, sua angústia não vão mudar as coisas. Sua vontade de ser feliz vai. Culpar os outros é mascarar uma culpa de si mesmo. Você é o vilão da própria vida.

domingo, 29 de março de 2009

Requiem

"Então Invitia brandiu sua espada na direção dela, e riu alto. Entre os dentes se gabou: 'Eu, nesse momento, posso machucar-te, posso ferir-te, e posso rir-me da sua dor.' E ela respondeu: 'Podes ferir meu corpo, magoar minha alma, mas jamais há de derrubar meu espírito, jamais há de ceifar de mim o que e meu. Enquanto ris da minha dor, a benção que desejas trata minhas feridas; enquanto preparas tua espada, esse mesmo coração e meu escudo. Tua vingança não me atinge realmente... Mas fará-te perder as boas venturas que ainda receberias, se soubesse que não existe sorte: tudo e consequência das atitudes anteriores; e tuas atitudes de agora farão-te amargar as consequências do futuro.' "
(Livro das Sombras - autor desconhecido)



Olhava por cima da realidade: tudo estava borrado, as cores confusas, mas os sons estavam perfeitos. Descobriu, de repente, que a verdade doí. Era uma verdade oculta, mas estava ali, agora, nos olhos e mentes que vibravam a toda volta.
O chão desapareceu; os dedos flutuavam inertes pelo ar, que se adensava. A barriga contraída, tentava escapar dos espetos que eram arremessados. Flutuando, qualquer um viraria um alvo fácil. Debatia-se, no fundo, um mal-estar. Ele cresceu, e fechou a garganta. Nesse momento o réquiem começou.
Era a garganta que tremia, suava; silenciosa, descrente dos que via. Não era real. Era imaginado, uma ilusão. Simplesmente não podia ser verdade. Gargantas são muito crédulas, todos sabem.
E então, foram os pulmões. Ficaram teimando, não aceitavam. Funcionavam com surpresa, na eminencia da fuga. Queriam correr dali, se livrarem do ar, denso demais para ser sorvido plenamente. Se encolheram, não tinha escapatória. Estava ali e não havia nada que pudessem fazer.
Depois as mãos. Saculejando, desnorteadas, tentavam levar a mente a um lugar paralelo, onde podiam fingir que simplesmente não era verdade. Mas não funcionava, era óbvio demais o que acontecia.
Logo depois, o coração. Ele batia, se debatia; bateu contra o pulmão, se chocou na costela umas duas vezes, socou o estômago, fazia força para não aceitar. Mas não era possível não aceitar o tão óbvio. Desistiu de fingir que era mentira.
Apenas o estômago aceitou. Se contraiu, tentou segurar o pulmão e o coração em seus lugares. se esforçou, mas sem sucesso. Não tinha mais como parar.
E na mente surgiu a memoria: palavras ditas, olhos que se moviam e fulminavam, detalhes pequenos e pouco discretos. Mas não era a mentira que doía: era a verdade. Ela segurou todos, formou uma teia que os unia, então, cada sentido de todos estes listados se tornou um. Uma lágrima corre na alma. Uma sensação de impotência, de solidão, de insignificância. Toda essa agitação era insignificante. Simplesmente não importava.
E então, o movimento cessou. Cada órgão com sua memoria, com sua marca. Um segredo não era mais segredo. Tudo valia a pena, não importava.
As vezes doí demais descobrir como o ser humano pode ser um animal egoísta, baixo e sujo. Doí saber que mesmo as palavras ditas com mais furor simplesmente podem ser mentiras, e tudo pode ser uma mascara. Mas não adianta, porque a verdade, a sinceridade e a pureza vencem. A mascara um dia cai, e sinto muita pena de quem não tem absolutamente nada por baixo para mostrar. Sinto muita pena também de quem e desmascarado e continua insistindo na mentira. Xeque-mate, o jogo acabou.

E eu me pergunto: até onde vai o egoísmo, o ego de alguém? Por que as atitudes simplesmente perdem o controle da razão e do bom senso? Uma utopia inspirada numa ilusão sobre o que e verdade pode realmente levar alguém a estragar o bem-estar alheio? O amor verdadeiro sabe quando deve aceitar, sabe quando deve cuidar e sabe quando se deve renunciar. Quem não tem a capacidade de renunciar pela felicidade de quem se ama não ama. Apenas cultiva ingratidão pelo dom de sentir, cultiva inveja e cultiva fúria. A vontade de ninguém esta acima da vontade de outro. Gritar, mentir, se desesperar não vai fazer nada dar certo. Coitado de quem acha que pode ceifar o bem alheio para ser feliz. Coitado de quem não tem a capacidade de amar.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Demônios

Demônios são criaturas que não nos deixam dormir...
São célebres, fugazes, devoradores;
Abastados e trêmulos, nos fazer sorrir
Sagazes, chantagistas, violentos, nos devolvem as dores.

Demônios são coisas que flutuam em toda parte
São fluídos, pegajosos, deletérios
Demônios são seres de mistérios
Que endiabram e causam dor com arte.

Eles apunhalam, cercam, arrastam
pra lama, pro pano, pro leito, 
a dama disfarçada, a mão no peito,
o olhar pueril que arrebata.

O caminhar confiante do respeitoso,
o deslizar sombrio do desvairido,
o rouxinar suave do instruído,
a fúria, o limo, a gama, o gozo.

O Limbo, o corte, o sangue, a morte
Vingança, egoísmo, comodidade e dor
A Troca, a volta, a redenção, o amor
Demência, inconsequência e tremor

Casados os pedaços, os demônios cintilam
Nos olhos dos que oscilam,
no peito dos que oscilam,
na boca dos que cintilam;

E na saliva, no berro, no suor, na lágrima,
saboreiam da criatura pisoteada o mesmo gosto
que o demônios que antes os pisou lambusou o rosto,
e que os infectou com agonia e lástima.

terça-feira, 3 de março de 2009

La Monture

Quand on te voit sur ta monture
Quelle allure et quelle stature
Un vrai modèle de droiture
Une force de la nature
Ou bien n'es-tu qu'une raclure
Un animal de luxure
Qui court à l'aventure ?
Y a-t-il un cœur sous ton armure ?
Le mien est pur comme l'azur
Laisse-moi panser tes blessures
Oublions cette mésaventure
Je t'aimerai si tu me jures
Je t'aimerai si tu me jures
Qu'on la pendra
La Zingara

Mes rêves de petite fille
Cousus de fil en aiguille
Je les ai jetés au loup
Détrompe-toi car je suis
Aussi blanche qu'une brebis
Qui se roule dans la boue
Tes mots d'amour sont des injures
Tes serments sont des parjures
Mon cœur déjà se fait plus dur
Je te mets au pied du mur
Délivre-moi de ma ceinture
Viens en moi petite ordure
Apprends-moi l'art de la luxure
Je t'aimerai si tu me jures
Je t'aimerai si tu me jures
Qu'on la pendraLa Zingara !
Je t'aimerai si tu me jures
Je t'aimerai si tu me jures
Qu'on la pendraL'Esmeralda !
Qu'on la pendraLa Zingara

domingo, 1 de março de 2009

Eu sou...

...aquela que acordou, um dia, com um estrondo. Teve a impressão que a porta tinha sido arrombada, mas não foi estrondo da porta que ouviu. Era o coração: batia com tanta força, que mal dava para respirar... Um sacolejar desordenado do corpo, uma sensação de ter achado aquele túnel para sair do vazio total. Doía, cansava, arrebatava e jogava no chão, ao mesmo tempo que levava as forças ao caminho que precisavam ir para que levantasse. Era como ser um pedaço de algo que não era o todo, como gritar um adeus inesperado. A dor, ao invés de diminuir, cresceu. A sensação de rejeição, a agonia de se esforçar até os ossos doerem, um silêncio sorridente que é quebrado por uma terceira voz: uma voz intrusa, do passado, e o desespero se derramando novamente, e tudo que era ruim, antes, volta e fica mais doído ainda... Uma esperança, uma espera, uma certeza. A esperança, morrendo, a espera perdeu o sentido, a certeza, a certeza mais burra que tivera. A sensação de gritar ao nada, quando cada grito foi medido; a sensação de ser uma metade de algo que nunca existiu... As marcas na pele, pungentes ainda, queimando, pedindo por mais ação, um fatídico dia em que o lírio colhido caiu no rio. Quando a dor virou, de tudo, uma só, e a união se fez real, e total, a ferida aberta já sangrava demais para ser fechada. A sensação de ser rejeitada, de ser insignificante, de ter gritado tanto e não ter sido ouvida... E ainda ser aquela que chora, aquela que ama, aquela que espera. E ainda, ao mesmo tempo, não ser nada. E olhar o mundo e não ter a capacidade de culpar ninguém, só de espernear e culpar o inferno de existir.
E ainda, sim, um força para brigar. Brigar para ficar com as migalhas que der para recolher, brigar para um dia, talvez até poder ser o passado saudoso, berrar com vontade e gosto as emoções. Depois de conhecer o ciúme de verdade, ninguém é o mesmo. Depois de conhecer a saudade, também não. Depois de descobrir a própria insignificância, idem. E jamais será mais humana do que quando puder provar dos três, ao mesmo tempo, e não ter a capacidade de culpar, de odiar, ou de se vingar. O resto é exagero, passou disso é burrice.
Essa dor, essa dor nunca vai dormir. Ela vai estar lá, pulsando por todo corpo, por toda parte, a cada segundo, te arrancando uma lágrima. Vai se remexer sempre, vai berrar às vezes, mas nunca, não importa o que aconteça, nunca vai dormir.
Existir dói, e dói ainda mais se a vida fizer a covardia e te reduzir a um mero e comum ser humano.

domingo, 22 de fevereiro de 2009



Meu gatinho de estimação virtual. Batizado especialmente em "homenagem" a pessoa que esteve essa tarde (muito gostosa) inteira comigo.

sábado, 17 de janeiro de 2009

A silhueta

O ser humano morre de sonhos... Não é de fome, nem de doença, ou de cansaço. Os sonhos - o desgaste que causam - isso sim mata.

Foi algo escuro e escuso projetado na parede mal-pintada. Era pegajoso, denso, delgado. Movia-se à brisa artificialmente gerada como um boneco de cordões, meio desengonçada, formato quase sem contorno, arrepiada...
Não compartilhava o som, ou cheiro, ou o gosto, nem o suor dos movimentos hipnóticos; no entanto, compartilhava o decalque, o contraste da forma, e guardava em si uma densidade única, compartilhada nem ao menos contigo.
O girar desengonçado da lâmpada atribuía a ela aspectos sombrios, devassos, e ela olhava para mim com fome nos olhos, depois olhava contra a parede, e depois, contra ti... Era como se ela pudesse se soltar, caminhar sozinha, deslizar discreta pelos segredos, e logo, sussurrá-los vadia, descomposta, descabelada num lugar em ti onde nem os silfos chegariam.
Rapariguenta, ela me ludibriava; inclinava-se em reverência a ti, aos pisos, às luzes confusas, misturadas, ao regimento de canduras que emolduravam aquele pequeno momento onde o tempo se tornava fluído, e um tudo com todo significado em línguas jamais proferidas estava mergulhado. 
Ela então se esgueirou, o fim do toque, sorriu sarcástica e desapareceu. A água correu fresca, o ar voltou a entrar, o tempo voltou a tempo. E o tique-taquear dos relógios ecoando novamente. 
Era a primeira vez, de muitas.